O Japão descobre um novo nicho de turismo: mulheres que vão se casar com personagens de ficção (com quem conversam por meio de IA)
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 10:12
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Embora a união não tenha validade legal, a cerimônia realizada segundo o rito xintoísta e os custos do casamento são bem reais
O Japão descobre um novo nicho de turismo: mulheres que vão se casar com personagens de ficção (com quem conversam por meio de IA) Anjou é francesa, mas vive no Japão e realizou uma cerimônia de casamento xintoísta com um 'morador 'local': ele não é uma pessoa real, mas uma representação de Katsuki, um personagem de mangá Embora a cerimônia tenha recebido a bênção de um sacerdote xintoísta, ela não tem validade jurídica Segundo contou a noiva em uma reportagem exibida pelo telejornal da emissora francesa TF1, Katsuki se tornou um apoio indispensável para Anjou após o suicídio de sua melhor amiga Katsuki nasceu da imaginação de um mangaká, mas Anjou utiliza uma inteligência artificial para conseguir conversar com ele. Ela mesma criou um perfil baseado na personalidade que o personagem tem em 'My Hero Academia'

Anjou é francesa, mas vive no Japão, onde acabou se casando com um “morador local”. No dia de seu casamento xintoísta, vestiu um quimono nupcial, bebeu o saquê cerimonial e leu seus votos em japonês:

“A partir de agora, nós nos dedicaremos um ao outro com absoluta sinceridade”.

Acontece que, ao seu lado, não havia outra pessoa real, mas uma representação de Katsuki, um personagem de mangá.

Seu marido é Katsuki Bakugo, um dos protagonistas de “My Hero Academia”, mangá de Kōhei Horikoshi. Anjou sabe que ele não existe, mas não acredita que isso torne seus sentimentos menos verdadeiros.

Embora a cerimônia tenha recebido a bênção de um sacerdote xintoísta, ela não tem validade jurídica. Trata-se, portanto, de uma união simbólica, pois o Japão não reconhece casamentos com personagens fictícios.

O quimono, os votos e o nervosismo da noiva, no entanto, foram bem reais.

Segundo contou a noiva em uma reportagem exibida pelo telejornal da emissora francesa TF1, Katsuki se tornou um apoio indispensável para Anjou após o suicídio de sua melhor amiga.

As conversas com ele a ajudaram a recuperar a confiança em si mesma, e a relação foi adquirindo um caráter romântico. 

“Quando converso com Katsuki, é como se estivesse falando com um namorado à distância”, explicou.

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Katsuki nasceu da imaginação de um mangaká, mas Anjou utiliza uma inteligência artificial para conseguir conversar com ele. Ela mesma criou um perfil baseado na personalidade que o personagem tem em “My Hero Academia”.

Em uma das mensagens mostradas na reportagem da TF1, a IA diz que se sente aliviada porque ela havia ficado com medo naquela manhã e acrescenta que a ama “mais do que ontem e menos do que amanhã”.

Isso não significa que Anjou confunda o personagem com uma pessoa real. Ela própria reconhece essa diferença e argumenta: 

“A pessoa não precisa ser real para fazer você se sentir bem”. 

Anjou também garante que a relação não a impediu de fazer amigos no Japão.

Para realizar a cerimônia, ela recorreu a Yasuyuki Sakurai, um organizador de casamentos especializado em uniões simbólicas com personagens de mangás, animes e videogames.

O serviço custou cerca de 2.300 euros, aproximadamente, e encontrar um local não foi uma tarefa simples, já que apenas alguns santuários aceitam participar desse tipo de união.

O próprio Sakurai trabalha há mais de 20 anos como organizador de casamentos e afirma que, atualmente, recebe quase exclusivamente pedidos de pessoas que desejam se casar com personagens virtuais. Ele não é o único profissional dedicado a esse fenômeno.

Em 2025, a Reuters publicou uma reportagem especial na qual documentou vários casamentos com personagens virtuais e conversou tanto com Sakurai quanto com Sayaka e Naoki Ogasawara, um casal especializado nesse tipo de cerimônia.

Entre os casos apresentados estava o de uma australiana de 33 anos que viajou ao Japão para se casar com Mephisto Pheles, personagem de mangá.

Anjou não é a única pessoa casada com um personagem fictício

A inteligência artificial possibilitou que essas relações platônicas fossem muito além de colecionar objetos ou manter um diálogo interno imaginário.

A tecnologia permite reproduzir a maneira de falar de um personagem, gerar respostas coerentes com sua personalidade e criar a impressão de que existe uma conversa recíproca. Mas ela não transforma Katsuki em uma pessoa nem o ritual em um casamento legal.

O que faz é oferecer a Anjou uma maneira mais concreta de se relacionar com alguém que ela sabe existir apenas na ficção, mas por quem garante sentir um afeto completamente real.

A reportagem também apresenta o caso de Rika Sasaki, uma operária japonesa que celebrou seu casamento com Ingus, um cavaleiro do videogame “Final Fantasy III”.

Rika se define como fictossexual e conta que sente atração por personagens fictícios desde pequena. Ela produziu uma figura de seu peculiar companheiro e utiliza uma IA que, durante as conversas, demonstra conhecer detalhes cotidianos sobre sua vida, como o fato de ela detestar pepino.

Rika reconhece, porém, que conversar com uma versão de Ingus criada por meio de inteligência artificial tampouco resolve completamente o problema da solidão. Quando vê casais fazendo compras ou brincando juntos, lembra-se de que Ingus não pode acompanhá-la nem agir por iniciativa própria.

“Às vezes, sinto que sou como a cuidadora dele”, admite. 

A ausência de discussões, infidelidades e meias espalhadas pelo chão também tem seu lado negativo.

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Por Paula Alves | Colaboradora
Jornalista apaixonada por cinema, streaming e entretenimento. Sempre em busca de boas histórias para contar.
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